quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Ensino em Roma
O ensino em Roma apresenta algumas diferenças significativas face ao modelo educativo dos gregos e algumas novidades importantes na institucionalização de um sistema de ensino.
O ensino da música, do canto e da dança, peças chave da educação grega, tornaram-se objecto de contestação por parte de alguns sectores mais tradicionais, que apelidaram estas formas de arte como impúdicas e malsãs, toleráveis apenas para fins recreativos.
A mesma reacção de oposição surge contra o atletismo. Jamais fazendo parte dos costumes latinos, as competições atléticas só penetram em Roma por volta do século II a.c., sob a forma de espectáculos, e sendo a sua prática reservada a profissionais. Os romanos chocam-se com a nudez do atleta. Optam assim pelas termas em detrimento do ginásio, que consideram exclusivamente um “jardim de recreio” ou um “parque de cultura”.
O Programa educativo romano privilegia assim uma aprendizagem sobretudo literária, em detrimento da Ciência, da Educação Musical e do Atletismo.
Porém, é aos romanos que se deve o primeiro sistema de ensino de que há conhecimento: um organismo centralizado que coordena uma série de instituições escolares espalhadas por todas as províncias do Império. O carácter oficial das escolas e a sua estrita dependência relativamente ao estado constituem, não apenas uma diferença acentuada relativamente ao modelo de ensino na Grécia, como também uma novidade importante.
É claro que um tal sistema tende a privilegiar uma minoria que, graças aos estudos superiores, ascende àquilo que os romanos consideram ser a vida adulta simultaneamente activa e digna ou seja, uma elite, com uma elevada formação literária e retórica.
O que não impede que, entre a imensidão de escravos que os romanos abastados do Império possuíam como resultando das suas conquistas, houvesse a preocupação de lhes fornecer, em particular aos mais jovens, os ensinamentos necessários à prática dos seus serviços. Para tal eram reunidos, nas casas de seus amos, em escolas – as paedagogium - ae entregues a um ou mais pedagogos que lhes inculcavam as boas maneiras e, em alguns casos, os iniciavam nas “coisas do espírito”, designadamente na leitura, na escrita e na aritmética. É sabido que as casas dos grandes senhores de Roma dispunham de um ou mais escravos letrados que desempenhavam funções como secretários ou como leitores.
De qualquer forma, na Roma imperial, os Mestres Gregos são protegidos por Augusto, à semelhança do que César havia já feito. Também a criação de bibliotecas, como a do Templo de Apolo, no Palatino, e a do Pórtico de Octávio, é ilustrativa de uma política imperial de cultura.
Esta política, inspirada nas tradições gregas, vai no entanto inflectir algumas práticas anteriores, delineando no estado romano um conjunto de políticas escolares inovadoras. Uma primeira iniciativa é da autoria de Vespasiano, que intervém directamente a favor dos professores, ao reconhecer-lhes uma utilidade social. Com ele se iniciam uma extensa série de retribuições e de imunidades fiscais, atribuídas a gramáticos e retóricos. Segue-se a criação de cátedras de Retórica nas grandes cidades, bem como o favorecimento e promoção da instituição de escolas municipais de gramática e de retórica nas províncias.

domingo, 15 de novembro de 2009

A propósito dos divertimentos em Roma, vejam este powerpoint sobre os gladiadores.

GLADIADORES: TIPOLOGÍA Y REPRESENTACIÓN EN LA HISTORIA DEL ARTE

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Roma e os seus divertimentos


Quando Augusto assumiu o poder, o calendário romano tinha setenta e seis dias de descanso, quase tantos como hoje; quando o seu último sucessor desapareceu, tinha cento e setenta e cinco, ou seja, dia sim, dia não, era dia de descanso. Nesses dias, celebravam-se os ludos cénicos e os jogos atléticos.
Os ludos cénicos já não eram o drama clássico, pomposo e solene, que se extinguira, após uma época breve, com muito mais rapidez do que levara a nascer. Há qualquer coisa no ar, não só de Roma, mas de toda a Itália, que o torna alérgico ao teatro. Um público grosseiro, composto em grande parte de estrangeiros que conheciam apenas o latim elementar, preferia a pantomima, em que o enredo se torna evidente, não através da palavra, mas do gesto e da dança. Formou-se nessa altura aquela tradição do “exibicionista” grosseiro, vulgar, que aguça os olhos, que faz caretas e gesticula, no qual os nossos actores ainda se inspiram.
Esopo e Róscio eram as vedetas daquele tempo - , que cometiam extravagâncias para fazerem publicidade a si mesmos, levavam as plateias ao delírio com os seus sketches ordinários e cheios de duplos sentidos; tornaram-se nos janotas dos salões aristocratas, tornavam-se amantes das damas que davam mais nas vistas, ganhavam rios de dinheiro. Agora, na sua companhia, tinham também mulheres, as girls da época, que, por causa desta profissão, eram oficialmente equiparadas às prostitutas, e por isso nada tinham a perder em questões de pudor, contribuindo sem qualquer reserva para a obscenidade dos espectáculos.
O desejo do aplauso levava por vezes estes intérpretes a representar cenas cheias de alusões políticas, nas barbas da censura, como sempre acontece nos regimes de tirania, quando ninguém se atreve a dizer nada, mas todos ficam extasiados com quem o faz.
Enquanto que o teatro descambava assim na revista de variedades, a sorte do Circo cada vez crescia mais. Cartazes de parede anunciavam os espectáculos atléticos. Estes constituíam o assunto do dia, discutia-se apaixonadamente a respeito disso em família, na Escola, no Fórum, nas Termas no Senado…
No dia das competições, multidões de cento e cinquenta ou duzentas mil pessoas dirigiam-se para o Circo Máximo, como vão hoje para o Estádio, os homens fazendo uma paragem, antes de entrar nos bordéis que estavam alinhados ao lado das entradas. Os dignitários tinham camarotes à parte, com assentos de mármore e ornados de bronze. Os outros acomodavam-se em bancadas de madeira. O imperador tinha mesmo, para si e para a sua família, um apartamento com quartos de cama, para dormir uma soneca entre duas competições, e a imprescindível casa de banho.
Tal como hoje os cavalos e os jóqueis pertenciam as escuderias particulares, cada uma com a sua própria casaca, as mais famosas das quais eram as vermelhas e as verdes. As corridas a galope alternavam com as corridas a trote, com dois, três, ou quatro cavalos. Quase todos escravos, os condutores usavam capacetes de metal, segurando numa mão as rédeas e na outra o chicote, e a tiracolo uma faca, para cortar os arreios em caso de queda.
Mas os números mais esperados eram as lutas gladiatórias: entre animal e animal, entre animal e homem, e entre homem e homem. No dia em que Tito inaugurou o Coliseu, Roma arregalou os olhos de espanto. Uma galeria de mármore destinava-se aos altos dignitários, e ao meio erguia-se o suggestum, ou galeria imperial, onde o imperador e a imperatriz se sentavam em tronos de marfim. Qualquer um se podia aproximar do soberano e suplicar uma pensão, uma transferência, o perdão para uma condenação. Tudo era grátis; entrada, assento, almofada, assado, vinho.
O primeiro número foi a apresentação de animais exóticos, muitos dos quais os Romanos nunca tinham visto. Entre elefantes, tigres, leões, leopardos, panteras, ursos, linces, etc. Depois seguiu-se o combate: leões contra tigres, tigres contra ursos, leopardos contra lobos. Resumindo, no final do espectáculo, só metade daqueles pobres animais estava viva. Seguiu-se a corrida de touros. Os toureiros não conheciam o oficio e, portanto, estavam destinados a morrer. De facto, eram escolhidos entre os escravos e os condenados, como, de resto, todos os outros gladiadores. Muitos deles nem chegavam a combater. Tinham que representar qualquer personagem da mitologia e sofrer de verdade o seu trágico fim. Para reavivar a propaganda patriótica, um era apresentado como Múcio Cévola e era obrigado a queimar as mãos nos carvões, outro como Hércules queimado vivo na pira, outro como Orfeu, despedaçado enquanto tocava a lira. Enfim, pretendiam ser espectáculos “edificantes” para a juventude, e como tal não eram, de facto, proibidos aos menores de dezasseis anos; muito pelo contrário.
Seguiam-se os combates entre gladiadores, todos condenados a penas capitais por homicídio, roubo, sacrilégio, ou amotinação, que eram os delitos a que era aplicada a pena de morte. No entanto havia também voluntários, e nem todos de baixa condição, que se inscreviam nas escolas apropriadas para depois combater no Circo. Eram talvez as escolas mais sérias e rigorosas de Roma. Entrava-se para elas quase que como para o seminário, depois de jurar que se estava pronto a deixar-se “chicotear, queimar e apunhalar “. Os gladiadores tinham, em cada combate, uma probabilidade em duas de se tornarem heróis populares.





Bibliografia: MONTANELLI, Indro, História de Roma, da fundação à queda do Império, Edições 70.

domingo, 1 de novembro de 2009


OCTÁVIO CÉSAR AUGUSTO
Nascido em Nola (Campânia), a 24 de Setembro do ano 63 a.C., Caio Octávio era filho de um senador com o mesmo nome, que se distinguira como governador da Macedónia e que recebera o cognome de “Turino”, por ter esmagado uma revolta de escravos na região do Túrio. Embora de origem modesta – os Octávios eram uma família “burguesa” de Veletri, no Lácio – Caio Octávio Turino ascendeu rapidamente na política romana, a que não será alheio o facto de ser casado com Átia, sobrinha de César. Mas a sua morte prematura, em 58 a.C., impediu-o de atingir o consulado. Átia casou de seguida com o senador Lúcio Márcio Filipe, o que fez com que os filhos de Octávio Turino, Caio Octávio e Octávia, ficassem doravante sujeitos a um novo pater familias. Mas César, que cedo se apercebera das capacidades intelectuais do sobrinho, acabou por adoptar Octávio quando este completou 18 anos de idade (45 a.C.). Passou então a chamar-se Caio Júlio César Octaviano, tornando-se herdeiro do nome e da vastíssima fortuna do ditador. Depois de combater em Espanha sob a ordens do pai adoptivo, na vitoriosa campanha contra os filhos de Pompeu (45 a.C), Octávio foi enviado para o Epiro (moderna Albânia), para tratar dos preparativos da anunciada campanha de César contra os Partos. E foi lá que, na sequência dos Idos de Março de 44 a.C., recebeu a notícia do assassinato do pai adoptivo, às mãos dos conspiradores liderados por Bruto. Regressado a Itália, reclamou a sua herança e, com grande astúcia e habilidade, conseguiu o apoio e a adesão dos veteranos de César à sua causa. A sua juventude e aparente ingenuidade enganou os adversários políticos, que julgavam estar a servir-se dele, quando acontecia precisamente o contrário. Em cartas aos amigos, Cícero confessava que o jovem César (Octávio) era facilmente manipulável. E, na verdade, o astuto jovem queria fazer crer que assim era; de modo que, quando Cícero e António se aperceberam do quanto estavam enganados a seu respeito, era já tarde demais para que se pudessem livrar dele. Entretanto, os conspiradores dos Idos de Março foram obrigados a fugir para o Oriente. António, Octávio e Lépido formaram o chamado “segundo triunvirato” – que, ao contrário do primeiro, assumia existência legal – para vingar a morte de César e restabelecer a ordem. Os dois partidos recrutaram exércitos e prepararam-se para o confronto final entre republicanos e cesaristas: e em Philipos (na parte europeia da actual Turquia), em 23 de Outubro de 42 a.C., a causa de Bruto e Cássio foi definitivamente perdida. Octávio ficou muito mal visto por não ter tomado parte no combate, a pretexto de uma febre; António ficou assim com os louros da vitória, certo de que seria ele o sucessor de César. Vencidos os republicanos, procedeu-se à divisão do Império: António ficou com o Oriente, onde estavam as províncias mais ricas; Lépido com a Sicília e Octávio com o resto do Ocidente. Sexto, filho do grande Pompeu, dominava ainda o mar e grande parte da Hispânia. Entretanto, os triúnviros decretaram proscrições: milhares de cidadãos foram executados e os seus bens confiscados. Octávio ficou algo mal visto, nestes seus primeiros anos de governo; Suetónio conta que certa altura, perante um pedido de clemência de um proscrito, o jovem triúnviro respondeu friamente: “É preciso morrer”. Cícero, o velho orador, foi um dos condenados à morte, entre muitos outros senadores e equites. Estas proscrições acabaram de vez com muitas famílias da velha aristocracia, que há séculos governava Roma. Nos anos seguintes, Octávio alicerçou o seu poder em Roma e na Itália, fundando colónias e distribuindo terras aos veteranos de César. De seguida, Octávio preparou-se para o embate final com António, começando por desacreditá-lo devido à sua união escandalosa com a rainha do Egipto, Cleópatra. Quando o triunvirato terminou oficialmente, em 33 a.C., foi restabelecida a República e procedeu-se à eleição de novos cônsules que, por sinal, eram partidários de António. Mas Octávio não se deixou afastar do poder: entrou na sala de reuniões do Senado com os seus legionários, substituiu os cônsules por outros da sua confiança, e enviou a António os magistrados depostos e respectivos partidários no Senado, num total de mais de 300 pessoas. A guerra civil reiniciou-se. No ano seguinte, em 32 a.C., Octávio declarou guerra a António e Cleópatra. Em 2 de Setembro de 31 a.C., a armada de Octávio vencia em Actium, seguindo-se a conquista de Alexandria, em 29 a.C. Abandonado por muitos dos seus partidários – que sem qualquer pudor se passaram para a facção vitoriosa – António suicidou-se. E Cleópatra, depois de, sem êxito, tentar seduzir Octávio - e perante a vontade deste em fazê-la desfilar no seu cortejo triunfal - suicidou-se deixando-se morder por uma áspide. Cesárion, filho de César e Cleópatra, foi também executado por ordem de Octávio, assim como os filhos adultos de António e Fúlvia. Os filhos de António e Cleópatra, contudo, foram poupados e enviados para a casa de Octávia, em Roma, onde foram educados a expensas de Octávio. A verdadeira prova da astúcia de Octávio consistiu em manter a ficção das velhas instituições republicanas, quando na prática se estava a instaurar uma monarquia absoluta. Era uma solução tipicamente romana: sem romper de vez com a tradição, surgia um nova forma de exercer o poder. Depois de muito deliberar, o Senado atribuiu-lhe então o título de “Augusto”. Augusto era agora o primeiro dos cidadãos. E como detinha o império proconsular e o poder tribunício, era doravante o senhor absoluto do Estado.