domingo, 15 de novembro de 2009

Roma e os seus divertimentos


Quando Augusto assumiu o poder, o calendário romano tinha setenta e seis dias de descanso, quase tantos como hoje; quando o seu último sucessor desapareceu, tinha cento e setenta e cinco, ou seja, dia sim, dia não, era dia de descanso. Nesses dias, celebravam-se os ludos cénicos e os jogos atléticos.
Os ludos cénicos já não eram o drama clássico, pomposo e solene, que se extinguira, após uma época breve, com muito mais rapidez do que levara a nascer. Há qualquer coisa no ar, não só de Roma, mas de toda a Itália, que o torna alérgico ao teatro. Um público grosseiro, composto em grande parte de estrangeiros que conheciam apenas o latim elementar, preferia a pantomima, em que o enredo se torna evidente, não através da palavra, mas do gesto e da dança. Formou-se nessa altura aquela tradição do “exibicionista” grosseiro, vulgar, que aguça os olhos, que faz caretas e gesticula, no qual os nossos actores ainda se inspiram.
Esopo e Róscio eram as vedetas daquele tempo - , que cometiam extravagâncias para fazerem publicidade a si mesmos, levavam as plateias ao delírio com os seus sketches ordinários e cheios de duplos sentidos; tornaram-se nos janotas dos salões aristocratas, tornavam-se amantes das damas que davam mais nas vistas, ganhavam rios de dinheiro. Agora, na sua companhia, tinham também mulheres, as girls da época, que, por causa desta profissão, eram oficialmente equiparadas às prostitutas, e por isso nada tinham a perder em questões de pudor, contribuindo sem qualquer reserva para a obscenidade dos espectáculos.
O desejo do aplauso levava por vezes estes intérpretes a representar cenas cheias de alusões políticas, nas barbas da censura, como sempre acontece nos regimes de tirania, quando ninguém se atreve a dizer nada, mas todos ficam extasiados com quem o faz.
Enquanto que o teatro descambava assim na revista de variedades, a sorte do Circo cada vez crescia mais. Cartazes de parede anunciavam os espectáculos atléticos. Estes constituíam o assunto do dia, discutia-se apaixonadamente a respeito disso em família, na Escola, no Fórum, nas Termas no Senado…
No dia das competições, multidões de cento e cinquenta ou duzentas mil pessoas dirigiam-se para o Circo Máximo, como vão hoje para o Estádio, os homens fazendo uma paragem, antes de entrar nos bordéis que estavam alinhados ao lado das entradas. Os dignitários tinham camarotes à parte, com assentos de mármore e ornados de bronze. Os outros acomodavam-se em bancadas de madeira. O imperador tinha mesmo, para si e para a sua família, um apartamento com quartos de cama, para dormir uma soneca entre duas competições, e a imprescindível casa de banho.
Tal como hoje os cavalos e os jóqueis pertenciam as escuderias particulares, cada uma com a sua própria casaca, as mais famosas das quais eram as vermelhas e as verdes. As corridas a galope alternavam com as corridas a trote, com dois, três, ou quatro cavalos. Quase todos escravos, os condutores usavam capacetes de metal, segurando numa mão as rédeas e na outra o chicote, e a tiracolo uma faca, para cortar os arreios em caso de queda.
Mas os números mais esperados eram as lutas gladiatórias: entre animal e animal, entre animal e homem, e entre homem e homem. No dia em que Tito inaugurou o Coliseu, Roma arregalou os olhos de espanto. Uma galeria de mármore destinava-se aos altos dignitários, e ao meio erguia-se o suggestum, ou galeria imperial, onde o imperador e a imperatriz se sentavam em tronos de marfim. Qualquer um se podia aproximar do soberano e suplicar uma pensão, uma transferência, o perdão para uma condenação. Tudo era grátis; entrada, assento, almofada, assado, vinho.
O primeiro número foi a apresentação de animais exóticos, muitos dos quais os Romanos nunca tinham visto. Entre elefantes, tigres, leões, leopardos, panteras, ursos, linces, etc. Depois seguiu-se o combate: leões contra tigres, tigres contra ursos, leopardos contra lobos. Resumindo, no final do espectáculo, só metade daqueles pobres animais estava viva. Seguiu-se a corrida de touros. Os toureiros não conheciam o oficio e, portanto, estavam destinados a morrer. De facto, eram escolhidos entre os escravos e os condenados, como, de resto, todos os outros gladiadores. Muitos deles nem chegavam a combater. Tinham que representar qualquer personagem da mitologia e sofrer de verdade o seu trágico fim. Para reavivar a propaganda patriótica, um era apresentado como Múcio Cévola e era obrigado a queimar as mãos nos carvões, outro como Hércules queimado vivo na pira, outro como Orfeu, despedaçado enquanto tocava a lira. Enfim, pretendiam ser espectáculos “edificantes” para a juventude, e como tal não eram, de facto, proibidos aos menores de dezasseis anos; muito pelo contrário.
Seguiam-se os combates entre gladiadores, todos condenados a penas capitais por homicídio, roubo, sacrilégio, ou amotinação, que eram os delitos a que era aplicada a pena de morte. No entanto havia também voluntários, e nem todos de baixa condição, que se inscreviam nas escolas apropriadas para depois combater no Circo. Eram talvez as escolas mais sérias e rigorosas de Roma. Entrava-se para elas quase que como para o seminário, depois de jurar que se estava pronto a deixar-se “chicotear, queimar e apunhalar “. Os gladiadores tinham, em cada combate, uma probabilidade em duas de se tornarem heróis populares.





Bibliografia: MONTANELLI, Indro, História de Roma, da fundação à queda do Império, Edições 70.

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