sábado, 24 de novembro de 2012

Cientistas portugueses mostram interior de uma antiga casa romana à luz de há 2000 anos


Século I da nossa era. Os donos de uma sumptuosa vila romana da antiga cidade de Conímbriga recebem convidados e fazem as honras da casa. Com evidente orgulho, mostram os magníficos frescos e mosaicos que cobrem respectivamente as paredes e o chão de várias divisões. A fraca luz emitida pelas lâmpadas de azeite faz ressaltar os tons avermelhados das pinturas e dos motivos geométricos do chão. A visão é arrebatadora, mas ao mesmo tempo reconfortante, cálida... Lá fora, no jardim interior da moradia, o barulho da água a jorrar dos repuxos contribui para acentuar o prazer dos olhos e essa sensação de bem-estar.A descrição poderá parecer ficcional, mas não é. Graças ao trabalho liderado por Alexandrino Gonçalves, do Departamento de Engenharia Informática do Instituto Politécnico de Leiria, e colegas – cujos resultados deverão ser publicados para o ano no Journal of Archaeological Science – foi possível, pela primeira vez, fazer uma simulação virtual em 3D de um interior doméstico romano que, do ponto de vista visual, corresponde com uma fidelidade sem precedentes ao que viam as pessoas que lá entrassem há 2000 anos.Para reconstituir os edifícios da antiguidade com a ajuda de computadores não basta simular a sua decoração tal como ela era quando estavam em uso. De facto, existe hoje um crescente interesse dos arqueólogos pelas condições em que esses ambientes eram percebidos pelos seus habitantes – em particular devido aos métodos de iluminação –, porque isso pode ter um papel importante na interpretação dos achados arqueológicos.“A forma como visualizamos os frescos e os mosaicos pode dar azo a diferentes interpretações”, disse ao PÚBLICO Alexandrino Gonçalves. E citou um outro exemplo – um projecto de Alan Chalmers, da Universidade de Warwick, Reino Unido, também co-autor do estudo agora publicado –, no qual foi comparado o aspecto visual de hieróglifos egípcios iluminados com lâmpadas onde ardia óleo de sésamo com uma iluminação com luz natural. Os resultados sugerem que os antigos egípcios viam tons de verde onde nós vemos hoje tons de azul. “Isso poderá ter implicações religiosas e permitir várias interpretações”, faz notar Alexandrino Gonçalves.   Voltando a Conímbriga, os cientistas focaram-se na Sala das Caçadas (assim designada devido ao tema dos mosaicos do chão) da Casa dos Repuxos, uma mansão cuja construção data do início do século I da era cristã.Como explicam no seu artigo, que já se encontra publicado online, a única forma de recriar esse ambiente foi através de cenários virtuais, uma vez que a residência romana em questão está hoje em ruínas, o que torna impossível mergulhá-la na sua iluminação original. Isto, explica Alexandrino Gonçalves, porque as casas romanas não tinham janelas – “tinham pavor que alguém lhes entrasse pela casa” – e portanto o seu interior era sempre apreendido com luz artificial.Mas antes de passarem à fase da reprodução por computador da “luz antiga” da Sala das Caçadas, os cientistas tiveram de simular, com objectos reais, a iluminação da época luso-romana, de forma a medir as suas características físicas e poder transferir esses dados para o software de simulação.Há dois milénios, as grandes casas romanas eram iluminadas com lâmpadas de azeite (“as tochas causavam muitos incêndios”, frisa Alexandrino Gonçalves). Estas lucernas eram pousadas no chão ou no topo de altos candelabros – e colocadas em “posições estratégicas” para realçar a decoração vertical e horizontal das salas.Muitas dessas lâmpadas foram encontradas nas escavações de Conímbriga e a primeira etapa do estudo consistiu portanto em reconstituí-las fielmente partindo de várias réplicas, de barro como as originais, cedidas à equipa pelo Museu Monográfico de Conímbriga.Depois veio a questão dos outros componentes: o azeite, os pavios. Ora, o azeite não era igual ao que consumimos hoje – não tinha aditivos – e os pavios eram de linho ou algodão. A tarefa não foi fácil, conta Alexandrino Gonçalves: felizmente, foi possível obter amostras de azeite produzido com métodos tradicionais, “à antiga, de uma maneira que hoje não seria autorizada pela ASAE por razões de higiene”. E mais: como os romanos adicionavam sal ao azeite, os cientistas também tiveram o cuidado de escolher uma fonte de sal puro, que veio neste caso das minas de sal da Figueira da Foz. (Este trabalho minucioso é descrito pelos cientistas no seu artigo, com todos os pormenores.)As lâmpadas foram a seguir colocadas numa sala de dimensões idênticas à da Sala das Caçadas, às escuras e perfeitamente fechada para evitar que correntes de ar pudessem perturbar as chamas das lucernas. E, com a ajuda de um espectro-radiómetro, os cientistas mediram a reflexão da luz das lâmpadas nas superfícies da sala – não só com “luz antiga” (azeite “antigo” e sal), mas também com azeite “antigo” sem sal e com azeite “moderno”. Conclusão: embora o azeite mais próximo do utilizado pelos romanos produzisse uma luminosidade 50% menos intensa do que o azeite mais semelhante ao do comércio actual, a adição de sal mais do que compensava esta perda.Assim, antes de mais, o estudo veio explicar o porquê de algo que até aqui os arqueólogos apenas sabiam através da literatura. Virgílio Correia, Director do Museu Monográfico de Conímbriga, que acompanhou de perto o estudo, explica-nos que, efectivamente, o célebre naturalista romano Plínio refere nos seus escritos “que a adição de sal ao azeite aumenta as suas propriedades químicas”. A análise espectro-radiométrica realizada por estes cientistas veio agora comprová-lo. “Comprovámos experimentalmente que, desta forma, o azeite durava mais tempo e emitia 60% mais luz”, diz por seu lado Alexandrino Gonçalves.A partir dos dados de luminosidade, os cientistas reconstituíram virtualmente o cenário da Sala das Caçadas gerando imagens ditas de alto alcance dinâmico (HDR ou high dynamic range). A sensibilidade desta tecnologia é de tal ordem que permite igualar a extrema sensibilidade do nosso sistema visual em condições de fraca iluminação. “É a primeira vez que se faz uma reconstituição virtual deste tipo com HDR”, diz-nos Alexandrino Gonçalves. A última etapa do estudo levaria o investigador à Universidade de Warwick, ao laboratório de Alan Chalmers, um dos poucos locais no mundo que dispõe de ecrãs HDR, capazes de apresentar as imagens HDR em todo o seu esplendor. Ali, ao longo de várias semanas, os cientistas mostraram as imagens da Sala das Caçadas a umas dezenas de voluntários – em “luz antiga”, mas também em luz eléctrica – e pediram-lhes para responder a diversas perguntas acerca da sua percepção do cenário virtual que estavam a ver. Os tons de cor dos mosaicos, nomeadamente, revelaram ser percebidos de forma diferente em cada um destes dois modos de iluminação: vermelhos cálidos no primeiro; acastanhados no segundo. A luz antiga criava, segundo referiram quase unanimemente os voluntários, uma sensação reconfortante, cálida, relaxante que contrastava fortemente com a atmosfera fria e as cores sem relevo vistas à luz de lâmpadas eléctricas.A equipa também realizou experiências em que, graças a um sistema detracking, seguiram o rasto do olhar dos participantes à medida que estes observavam as imagens. E aqui constataram que, ao passo que “com luz romana, o olhar se fixava mais nos frescos e nos mosaicos, com luz eléctrica a dispersão do olhar era maior”, frisa Alexandrino Gonçalves. “Isto vai no sentido do que se pensava”, acrescenta: “Os romanos gostavam de impressionar as visitas com os seus mosaicos e frescos e colocavam as lucernas nos sítios estratégicos para os tornarem mais espectaculares.”
Fonte: Público

Aspecto real das ruínas da Sala das Caçadas vista da entrada
Reconstituição virtual da Sala das Caçadas, vista da entrada e iluminada por candelabros


Reconstituição virtual de um canto da Sala das Caçadas iluminado por lucernas

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