segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Conímbriga


Situada nas proximidades da vila de Condeixa-a-Nova, a estação arqueológica de Conímbriga foi um antigo aglomerado populacional do Neolítico, habitado ainda na Idade do Ferro, antes de ser conquistada e romanizada no século II a. C. As ruínas romanas de Conímbriga são famosas pelas suas casas, jardins e mosaicos policromos, para além da grandiosa muralha, das suas termas e dos restos do seu Fórum. Os vestígios materiais ali encontrados provam a sua origem pré-romana, assim como o próprio topónimo - de origem celta, significa "lugar alto e rochoso" e "lugar fortitificado", como a realidade bem o demonstra. O agregado urbano de Conímbriga integrava a circunscrição administrativa da Lusitânia - que se localizava entre os rios Douro e o Guadiana-, no centro da via que ligava Bracara Augusta(Braga) a Olisipo(Lisboa).No início do século I d. C.,sendo Augusto chefe do vasto Império Romano, Conímbriga transfigurou-se numa bonita, confortável e desenvolvida cidade, com belas casas, termas públicas e um Fórum. Este centro administrativo seria  objecto de remodelação nos finais da primeira centúria, substituído por um outro de maiores dimensões, ao mesmo tempo que a urbe era elevada à categoria de município.
Todavia, o século II d. C. reservaria desagradáveis eventos. A ameaça provinha do Norte e partia dos povos bárbaros - Alanos, Vândalos e Suevos. Para se defenderem, os cidadãos de Conímbriga decidem edificar uma segunda linha de defesa. Como a pedra escasseasse, resolveram demolir a parte externa da malha urbana. Assim, casas, monumentos e estátuas foram destruídos e a sua pedra reutilizada para se erguer a nova muralha.

Contudo, os últimos dias de Conímbriga ainda não tinham chegado e a cidade pôde, momentaneamente, respirar de alívio. Corria o ano de 465 quando os Suevos chegaram às portas de Conímbriga. Três anos mais tarde conquistaram a cidade, que entra rapidamente em declínio. Sem interesse económico e estratégico, os seus derradeiros habitantes abandonam-na no século VII. Com eles seguiu o bispo e o próprio nome, trasladados para Aeminium-  actual cidade de Coimbra.Longo tempo esquecida, Conímbriga voltou a reaparecer nos finais do século XIX, graças ao labor de estudiosos e arqueólogos como Filipe Simões, António Augusto Gonçalves, Vergílio Correia, Bairrão Oleiro ou, mais recentemente, Jorge e Adília Alarcão.
Com o espólio recolhido nas diversas campanhas arqueológicas constituiu-se o Museu Monográfico de Conímbriga, fundado em 1962 e reaberto em 1985, totalmente remodelado. Dividido em duas salas, este museu conta-nos, a partir dos seus vestígios materiais, a história dos homens que habitaram Conímbriga. Na primeira sala observam-se os  objectos ligados à circulação monetária no Império Romano, bem como alguns tesouros de moedas, para além de secções ligadas aos ofícios e às artes da comunidade urbana. A segunda sala revela-nos a reconstituição do centro administrativo da cidade, o Fórum flaviano, ao mesmo tempo que expõe belíssimos mosaicos, estuques e pinturas murais, demonstrando a grande beleza que os romanos colocavam na decoração do interior das suas casas. Por último, esta ala é encerrada por um mundo mais íntimo e pessoal, um espaço divinizado, que apresenta lápides funerárias e inscrições votivas, dirigidas às diversas divindades.
No entanto, Conímbriga revela outros tesouros. Ao deambularmos pelas artérias das suas ruínas, deparamos com os bairros de residências  colectivas ou individuais - com realce para a Casa Cantaber, a maior da cidade e uma das maiores do mundo romano ocidental, dotada de termas próprias, ou para a Casa dos Repuxos, na parte externa da muralha, de grande requinte e beleza artística, transmitida pelos seus jardins e pelos seus magníficos mosaicos policromos, com motivos florais, mitológicos ou geometrizantes. Para além da pesada muralha, podemos ainda contemplar os empreendimentos públicos da cidade, como o aqueduto, que transportava a água da nascente de Alcabideque, a cerca de 3 km, ou as canalizações em chumbo, que faziam chegar a água aos diversos domicílios. Nota-se ainda a rede de esgotos e os edifícios públicos, como os restos da Basílica, do Anfiteatro ou do Fórum.
Monumentalidade, solidez, equilíbrio e sentido prático são alguns dos atributos da arte romana, virada essencialmente para a vida social e cultural da cidade. Conímbriga é um reflexo dessa harmoniosa linguagem artística.

Conímbriga. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia (Imagens)

Ficheiro:Conímbriga -casa das fontes.jpg
Conímbriga - Casa dos Repuxos
Ficheiro:Conimbriga calcada 4.jpg

Sala com pavimento revestido a mosaico

Ficheiro:Conimbriga vista 1.jpg
Vista de Conímbriga



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Reconquista Cristã


Este nome é geralmente usado para identificar a recuperação do território da Península Ibérica ocupado pelos Muçulmanos, desde a revolta de Pelágio (718) até à conquista de Granada (1492).
Na sua maioria, os autores ibéricos atribuem um "carácter de luta contínua, ao mesmo tempo religiosa e nacional".
É inquestionável que a invasão muçulmana teve uma evolução diferente das outras invasões europeias, porque, embora tenham deixado vestígios da sua presença, os Mouros nunca se miscigenaram (cultural e racialmente) com os povos autóctones. Daí resultou que os Muçulmanos fossem sempre considerados como os invasores, após oito séculos de difícil convivência.
Neste conflito a religião teve um papel primordial não para unir os diferentes grupos étnicos (Árabes e Berberes; Francos, Bascos, Astures, Godos e Iberos) mas também para impossibilitar a assimilação e até o compromisso.
Inicialmente, os primeiros grupos de Cristãos nas Astúrias resistiram para garantir a sua subsistência e os Francos resistiram para defender as vias de comunicação com a Península Ibérica. Os Bascos dos Pirenéus e os Francos uniram-se, depois de superadas as lutas entre si, para combater o inimigo comum. Após o desmembramento do Império Carolíngio, a luta foi continuada pelos senhores locais, estes formaram os núcleos que vieram a tornar-se nos reinos de Navarra e Aragão e no condado da Catalunha.
As Astúrias aproveitaram a luta entre Árabes e Berberes (742-48) para alargar o seu território, no tempo de D. Afonso I, que destruiu e despovoou a fronteira meridional até ao Douro. Com Afonso III (886-910) foi reconquistada a faixa ocidental até ao Mondego e foram repovoadas as áreas de Portucale, Coimbra, Viseu, Lamego e Leão. Esta última cidade passou a ser o centro do reino em 914.
No século X a luta foi menos intensa, até Almançor tomar o poder e liderar várias campanhas devastadoras que fizeram recuar a fronteira até ao Douro (981-1002).
Depois, na primeira metade do século XI, a luta voltou a diminuir, devido à crise dos reinos cristãos e à fragmentação do emirado de Córdova (taifas). Fernando Magno levou a fronteira até ao Mondego (1064) e iniciou uma política de alianças  protectorados com os príncipes muçulmanos, que foram, no geral, pouco favoráveis para os invasores.
No final do século, D. Afonso VI alcançou o Tejo (1085), repetindo a mesma política de alianças e desenvolvendo a colaboração com cavaleiros francos. O seu  objectivo era criar um império hispânico para reclamar a sua hegemonia sobre a península. Dentro deste contexto, foi repovoado o território entre o Douro e o Tejo e formou-se em Portugal um núcleo que pretendia a independência.
No século XII a Reconquista foi sobretudo uma  acção política para desenvolver os reinos de Portugal, Leão-Castela e Aragão.  acção do rei passou a sobrepor-se sobre a dos senhores locais, com o auxílio das ordens militares e apoiada também pelo repovoamento da Estremadura e do Tejo. Simultaneamente, foi-se formando o espírito de Cruzada, sob a influência da cúria papal e das ordens militares. Dentro deste espírito travaram-se as batalhas de Navas de Tolosa (1212) e do Salado (1340) e conquistou-se o Algarve (1249), numa altura em que, na Europa central, esmorecia o ideal da Cruzada. Contudo, tal não impediu que os Cristãos aceitassem a capitulação moura e lhes dessem alguns privilégios.
Após a tomada de Algeciras (1348), a Reconquista acalmou até à expulsão final dos Muçulmanos, com a tomada de Granada (1492).
A Reconquista possibilitou explicar a formação dos reinos peninsulares medievais e as características (económicas e culturais) das maiores regiões da Espanha, integradas nos reinos cristãos em condições especiais e variáveis de caso para caso.
Reconquista Cristã. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia (Imagem)
Ficheiro:Pt-Reconquista2.jpg

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Condado Portucalense


Território compreendido entre o Tejo e o Minho que foi entregue ao governo do conde D. Henrique no período da Reconquista Cristã. Mais tarde, com D. Afonso Henriques, filho de D. Henrique, o Condado Portucalense estaria na origem do reino independente de Portugal. Iniciada a Reconquista, vários reinos se formaram na retaguarda do avanço cristão: Astúrias, Oviedo, Leão, Castela e Aragão. Alguns fundiram-se, outros desmembraram-se; porém, não mais permitiram um domínio árabe total da Península Ibérica. Muitos cavaleiros estrangeiros, filhos-segundos à procura de fortuna ou prestígio militar e poder político, associaram-se a este esforço de Reconquista, arregimentando-se aos contingentes dos reis cristãos, nomeadamente de D. Afonso VI de Leão, Castela e Galiza, autoproclamado Imperador das Espanhas. Entre estes terá vindo Henrique da Borgonha, bisneto de Roberto II de França e sobrinho-neto de Hugo, abade de Cluny, primo de Raimundo, também ele vindo para a Península. Casou-se com D. Teresa (ainda criança), filha bastarda de Afonso VI, ao passo que Raimundo desposou D. Urraca, primogénita do mesmo rei de Leão e Castela. Recebeu D. Henrique, de Afonso VI, como dote talvez, o governo (a partir de 1095) do território compreendido entre o Tejo e o Minho, designado então por Condado Portucalense.Englobava este território as terrae de Portucale (Porto) e Coimbra, com Santarém, que fechava o flanco sul, dependente dos avanços ou recuos da Reconquista. A designação condado difere pois da abrangência geográfica de terrae ou província portucalense, que não incluía Coimbra ou Santarém, que passam a fazer parte do Condado aquando da sua outorga a D. Henrique. Alguns autores, como Alexandre Herculano, subordinam o Condado a D. Raimundo e ao seu domínio da Galiza; outros, unicamente ao monarca, D. Afonso VI. Um dos objetivos principais da formação do condado e da atribuição do governo ao cavaleiro borguinhão terá sido a defesa do flanco meridional desta região face aos contra-ataques almorávidas, que chegaram a reconquistar mesmo Lisboa (1094?), mantendo-se todavia Santarém na posse dos cristãos. Também terá pesado a enorme extensão do território galego então, da Corunha ao Tejo.O carácter jurídico da atribuição do Condado permanece polémico e alvo de interpretações várias, diferindo de acordo com a leitura de um ou outro documento coevo. Alexandre Herculano, por exemplo, defende a tese da tenência (posse) amovível, isto é, mera doação régia sem implicar que passe para os seus herdeiros; Paulo Merêa confere a essa concessão um carácter hereditário. D. Teresa, como diz Joel Serrão, mantém em ambas as teorias a posse do Condado, mesmo quando, em 1109, por desavenças com D. Afonso VI, D. Henrique perde a posse do mesmo, procurando apoios no seu país, nomeadamente em Cluny, importante abadia beneditina com grande influência espiritual e política na Cristandade ocidental.D. Henrique tenta fortalecer, também religiosamente, o seu governo do Condado, reforçando Braga como sede metropolitana, rival de Toledo, com o vínculo papal das dioceses de Coimbra, Lamego e Viseu para a arquidiocese minhota, em 1102. Braga passa a ser a Igreja primaz das dioceses do Ocidente cristão da Península, afastando a influência toledana do Condado Portucalense.Outros momentos, porém, definem a história do Condado Portucalense e desenham o seu futuro, como por exemplo o Pacto Sucessório acordado entre D. Raimundo e D. Henrique, recebendo este Toledo, ou a Galiza, em troca do seu apoio para a conquista do trono de Leão e Castela, entretanto garantido a D. Sancho, filho de D. Afonso VI com a árabe Zaida. Contudo, D. Raimundo morre em 1107, e no ano seguinte morre D. Sancho. Em 1109, o mesmo acontece a Afonso VI. Este, ainda em vida, concebera o plano de casar D. Urraca com o rei de Aragão, entregando a Galiza ao neto Afonso Raimundes, mas sem direito de ascender ao trono e na dependência do padrasto e da mãe. D. Henrique não concorda com este plano, contrário ao Pacto Sucessório, o que faz com que seja afastado do Condado em 1109 por Afonso VI, que o seu governo a D. Urraca. Esta, mais tarde, por influência de D. Teresa, devolve-o ao cunhado, entretanto em busca de apoios em França. Por essa altura, os Almorávidas avançam para norte, tomando Santarém e ameaçando Coimbra.
D. Urraca sucede a D. Afonso VI. Por influência da nobreza galega, desposa Afonso I de Aragão, pondo em perigo a independência de Leão. Esses mesmos nobres, perante tal ameaça, contestam o soberano aragonês e repudiam o casamento, originando conflitos entre fidalgos de vários reinos cristãos. Os nobres aclamam como rei da Galiza D. Afonso Raimundes, filho do primeiro casamento de D. Urraca, o que origina uma série de lutas civis. Em toda esta situação de conflito e intriga, D. Henrique, mesmo longe, tenta tornar o Condado independente da Galiza e do seu sobrinho. Entretanto, morre em 1112, deixando um filho de três anos, Afonso Henriques. Passa a governar o condado D. Teresa, que honra os compromissos de D. Henrique. Apoiada por nobres galegos e pelo bispo compostelano, entra em conflito com D. Urraca, rainha de Leão e Castela, que, vencendo a irmã em 1119, toma posse do Condado. O arcebispo de Braga, D. Paio Mendes, com alguns nobres portucalenses, submete-se a D. Urraca. O prelado será, porém, obrigado a refugiar-se em Zamora quando, mais tarde, D. Teresa retoma o governo condal, com algumas concessões. Nessa cidade leonesa, Afonso Henriques, acompanhante do arcebispo, arma-se sozinho cavaleiro. Mais tarde, o arcebispo regressa a Braga, entrando-se num período de acalmia até à morte de D. Urraca em 1126. Sucede-lhe o filho, D. Afonso Raimundes (futuro D. Afonso VII), que logo lembra à tia deveres feudais e lhe impõe submissão em 1127.D. Teresa, extremamente ligada a Fernão Peres de Trava, levanta cada vez mais contra si os ódios da nobreza portucalense e do próprio povo, com o filho, Afonso Henriques, à frente dos descontentes. D. Afonso VII chega mesmo a invadir o Condado Portucalense. Afonso Henriques, com fidalgos do condado, levanta-se militarmente contra a mãe, derrotando as forças galegas de D. Teresa na Batalha de S. Mamede, em 1128. O jovem Afonso Henriques assume, então, em 24 de junho de 1128, o governo do Condado Portucalense. Bloqueado o avanço para norte do rio Minho, por acordo com D. Afonso VII, seu primo, e com os Árabes perto de Coimbra, D. Afonso Henriques empreende a expansão para sul. Ainda atacará algumas vezes a Galiza, derrotando mesmo em 1137, em Cerneja, o exército leonês, de forma a defender também o flanco norte. Juridicamente, o termo Condado não desaparece de imediato. Tal acontecerá depois da sua autoproclamação como príncipe ou rei.Ameaçado o flanco sul do Condado pelos Árabes, o jovem guerreiro trava contra estes uma batalha em Ourique, em 1139, desbaratando-os. Empreende, simultaneamente, lutas contra os leoneses (1140), conquistando posições políticas e até territoriais para o Condado, entrando-se depois em tréguas até 1143, quando assina a paz em Zamora, onde é reconhecido como rei. Afonso Henriques usava o título havia três anos, desde o torneio de Arcos de Valdevez, em 1140, após o episódio de Ourique. Desaparece, assim, a designação histórica de Condado Portucalense: nasce o reino de Portugal.
Condado Portucalense. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
 
Ficheiro:Condado portucalense carte-1070-fr.png
O Condado Portucalense em 1070