terça-feira, 24 de setembro de 2013

Aumento Demográfico do Século XVIII


Um dos grandes indicadores do desenvolvimento da Europa ao longo do século XVIII é o aumento demográfico aliado às rápidas mudanças no campo social e político, cujas maiores manifestações se enquadram na França e na Inglaterra. De facto, o século XVIII é o século das Revoluções e entre elas é também considerada a "Revolução Demográfica". Salienta-se, no entanto, a dificuldade com que se defronta a historiografia quando se depara com a irremediável carência de dados estatísticos e, mesmo quando existem, é necessário ter em conta a sua fiabilidade. Para além disso, as pesquisas através dos registos paroquiais de nascimentos, óbitos e casamentos nem sempre abrangem a totalidade da população devido às diferentes opções religiosas verificadas nesses territórios, excluindo naturalmente os grupos minoritários. O ato de recensear a população se generalizou a partir do século XIX - os primeiros conhecidos ocorreram na Áustria, em 1695. A partir de 1748, os Suecos foram os primeiros a realizar este tipo de recolha de dados anualmente, tendo em conta o número de casamentos, óbitos e nascimentos. A contagem por cabeça se realizou muito mais tarde, por dificuldades e falta de conhecimentos técnicos. em 1801 é que se realizou o primeiro censo regular na França e na Grã-Bretanha.
Assim, os cálculos oficiais variavam muito. Até 1700 a Europa apresentava-se pouco povoada, pois era raro que os países ultrapassassem os dez milhões de habitantes. Caracterizava-a uma mortalidade elevada, principalmente a infantil (entre 1 e 10 anos), e uma natalidade também elevada. As populações eram atingidas por calamidades frequentes como a peste, a fome e a guerra. O celibato era muito comum, pois era uma forma de evitar a dispersão do património familiar, principalmente entre os membros da nobreza, que enviavam os seus filhos e filhas mais jovens para os conventos. Regra geral, os casamentos eram realizados em idades tardias. O século XVIII foi desigual no crescimento populacional, porque se verificou a ocorrência de alguns períodos de fome e de carência de produtos alimentares nas suas primeiras décadas. A explosão demográfica verificou-se apenas a partir de 1750, mas a tendência para o crescimento se vinha desenhando muito lentamente desde o século XVII, nomeadamente na Alemanha (após a Guerra dos Trinta Anos), em Inglaterra e no País de Gales (a partir dos anos noventa). Segundo George Rudé, a população da Europa teria passado de 100-120 milhões de habitantes em 1700 para 120-140 milhões em 1750, atingindo os 180-190 milhões em 1800. O maior contributo para este aumento vem da Rússia, que triplicou o número de efetivos), da Inglaterra e do País de Gales que passou de cinco para nove milhões de habitantes, da Prússia e do Império dos Habsburgos. Entre os países com um crescimento mais lento salientam-se a Espanha, a França (com aumento de 30 por cento), a Itália (com mais 30 por cento) e Portugal (aumentou em cerca de 50 por cento). A Europa saía do "Ciclo Demográfico Antigo" e entrava no "Ciclo Demográfico Moderno".
A resposta às causas deste enorme crescimento poderá procurar-se em vários fatores, que diferem segundo a opinião dos historiadores que têm tratado este fenómeno. Uma das controvérsias é a atribuição de uma maior importância ao aumento de nascimentos ou à diminuição dos óbitos, dependendo do ponto de vista dos investigadores. Quais seriam então as razões para a ocorrência de uma ou de outra hipótese: a melhoria do nível de vida das populações? O aumento de cuidados higiénicos? A diminuição de doenças, de epidemias, de guerras e de fomes? O matrimónio de pessoas mais jovens e com maiores níveis de fertilidade? A imigração? Ou a uma revolução agrária ou industrial? Consoante o país em análise, deve-se ter em conta a sua própria diversidade. Por isso, uma causa que serve a uma nação não será relevante para outra, dependendo das conjunturas vividas por cada uma delas no período em análise.

É possível que a tendência geral tenha sido uma diminuição da taxa da mortalidade como a que se verificou em Inglaterra, na Suécia e na França. No entanto, na Noruega a manutenção dos mesmos índices de alta mortalidade foi constante e na Europa de Leste os registos revelaram um aumento. No que diz respeito à esperança média de vida, verificaram-se também diferenças quando são comparadas as ocorrências nos vários países, nos diferentes extratos sociais e na população feminina e masculina - se para alguns países a média se situava nos 47,6 (Genebra), noutros era ultrapassada; na Suécia o limite médio de idade para os homens era de 33,7 anos e de 36,6 para as mulheres entre 1750 e 1800. A baixa da taxa de mortalidade poderá ter a ver com uma melhoria geral das condições de vida e com uma franca diminuição de fomes e de epidemias, embora tenham ocorrido surtos esporadicamente (varíola em França, malária em Espanha e tosse convulsa na Suécia). A menor incidência da guerra é também considerada um fator de primeiro plano, pois teve consequências ao nível da diminuição da difusão das epidemias e da frequência de pilhagens que arruinavam a economia dos países envolvidos. As más colheitas do início do século não se verificariam posteriormente, pois houve um melhoramento significativo das condições climatéricas, exceto no contexto da Europa de Leste, onde as fomes ainda provocavam grandes mortandades. Se a melhoria geral da quantidade e qualidade dos géneros alimentares foi importante para o abaixamento da taxa de mortalidade (torna-se comum o uso do milho e da batata e expande-se a produção de gado), foi igualmente significativo o facto de estas populações terem criado maiores resistências às doenças, ligadas quer ao desenvolvimento da agricultura e ao uso de alimentos mais nutritivos, quer à preocupação com a saúde e com a higiene, nomeadamente as novas conceções no que diz respeito aos esgotos, aos enterramentos de cadáveres, aos diagnósticos médicos e à utilização de novos medicamentos. Em traços muito simples a Inglaterra é bem o exemplo do abaixamento da mortalidade a partir de 1740/50, devido à melhoria significativa das condições sanitárias, à diminuição da incidência das pestes e ao aumento de produção. O incremento do nível de vida provocou um aumento da taxa de nupcialidade e da esperança de vida. A impossibilidade de aplicar os mesmos modelos de análise aos diferentes países da Europa é demonstrada pelo caso francês, cujo crescimento não foi tão espetacular como o inglês.
Um olhar sobre o aumento das taxas de natalidade oferece-nos outra perspetiva do crescimento. É considerado para alguns o autêntico motor da evolução, com as conhecidas variações de país para país - se na Finlândia a taxa de natalidade aumentou consideravelmente, na França diminuiu. Também para este fenómeno se avançam algumas teorias: introduziram-se algumas variáveis como a idade dos nubentes, a taxa de matrimónios, a saúde dos casais, a fertilidade, a incidência do celibato, as migrações e a prática de métodos contracetivos. Também neste aspeto se verificaram muitas variantes e diferentes explicações para o aumento ou diminuição das taxas de natalidade: se na França a idade de casamento das mulheres se situava nos 25 anos, na Irlanda casavam muito jovens; em Espanha, o elevado número de clérigos e a distribuição das terras provocou um abaixamento da natalidade; em França procedeu-se a práticas de controlo de natalidade aliadas à crescente perda de e à necessidade de manter coeso o património, não o dispersando por um elevado número de filhos. A migração foi também um fator de peso no aumento ou diminuição da população (ocasionou a libertação de terras cultiváveis quando a viagem se fazia para as colónias ultramarinas).

Não é importante conhecer as causas da Revolução Demográfica mas também as suas consequências. Os contemporâneos como Malthus auguravam em 1798 um futuro negro para a Europa, proveniente do aumento desmesurado da população. A sua preocupação fundamentava-se no pressuposto de que a falta de guerras, de epidemias, de fomes e de um controlo preventivo de nascimentos provocaria um número crescente de bocas para alimentar que rapidamente esgotariam os recursos de cada nação e, consequentemente, chegariam as calamidades. A esta opinião pessimista contrapunha-se outra difundida pelos fisiocratas, que viam no aumento de braços o motor gerador de maior riqueza com o fomento de trabalho nos campos. O aumento de população era assim uma via para a prosperidade dos povos.
Com a evolução dos acontecimentos, a tese de Malthus não foi totalmente verificada (as crises de produção não eram tão frequentes - contam-se as de 1771, 1772, 1786, 1796 e 1797, que provocaram consideráveis taxas de mortalidade), pois o aumento da população andava de braço dado com a prosperidade, dando razão aos fisiocratas, que defenderam um aumento de população.
Fontes: Aumento Demográfico do Século XVIII. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia (Imagens)
 
File:The cow pock.jpg
Caricatura de Jenner a administrar a vacina a um grupo de pessoas amedrontadas

 

Sem comentários:

Enviar um comentário